MANUEL JOSÉ ARANHA, UM EXEMPLO DE
DEDICAÇÃO
MANUEL JOSÉ
DA LUZ ARANHA, nasceu em 03/12/1941, na freguesia de Chamusca,
concelho de Chamusca, tipógrafo de profissão, mas de personalidade
multifacetada, foi desportista, apresentador de espectáculos, poeta, Director
associativo e desportivo, dirigente sindical e vereador municipal, dedicando
grande parte da sua vida à causa humana, social e cultural da nossa Terra.
Homem de
simpatia transbordante e senhor de uma conversa inteligente, culta e,
enriquecedora, é uma Figura incontornável da tradição, dos
princípios e dos valores que fizeram da Chamusca uma referência no Ribatejo.
- Desde muito jovem começou a desenvolver actividades na área cultural.
Quais foram as suas motivações?
Filho de gente do campo com vida dura e difícil,
vivendo numa casa sem luz eléctrica, sem água, sem conforto. Aluno com bom
aproveitamento no ensino primário, mas sem hipóteses de continuar a estudar, já
raspava ruas na idade escolar para ganhar algum dinheiro. Apesar de tudo e
creio que por influência do meu pai, que foi um dos fundadores do Sporting
Clube Chamusquense, numa altura em que as colectividades tinham uma enorme
importância na vida social, desportiva e cultural do nosso povo, desde criança
senti despertar em mim o gosto pelas actividades culturais da nossa Terra,
acompanhando tanto quanto possível o que havia nessa área. Assim, logo o teatro
me contagiou, primeiro como admirador, mais tarde como participante activo.
- Com que idade se iniciou na cena teatral e durante quanto tempo o
fez?
A primeira vez que representei em palco foi na Guiné,
em Bafatá, no Natal de 1963. Num espectáculo de teatro para as tropas que ali
cumpriam serviço militar e das quais eu fiz parte como 1.º Cabo
Radiotelegrafista. Recordo que nesse espectáculo participou também o Dr. Luís
Goes, famoso cantor e médico de Coimbra, oficial da Companhia de Caçadores 509,
colocada em Piché.
Portanto, foi assim que comecei a representar aos 22
anos e me mantive ao longo de um percurso que durou até final do século XX, até
aos meus 60 anos.
O boletim de identidade do jovem 1.º Cabo Manuel José Aranha aquando do seu aquartelamento em Bafatá, Guiné.
- Quando é que se estreou na Chamusca e que memórias guarda de peças,
actores e autores?
Na Chamusca a estreia aconteceu na peça “Gente Nossa”
em 1967.
Em 1970 fiz parte do elenco da peça dramática “O
Lugre” da autoria de Bernardo Santareno, encenada por esse consagrado actor
amador chamusquense Vítor Hugo Dias Marques, que conquistou para a Chamusca um
honroso 3.º lugar no Concurso Nacional de Teatro Amador, que se realizou no
Teatro Monumental em Lisboa.
Participei igualmente, na década de 90, numa série de
espectáculos de Revista, desse grande autor, encenador e actor João José
Samouco da Fonseca, que juntamente com António Lourenço Arrenega e Manuel da
Silva Santos constituíam a fina flor do teatro da Chamusca.
Este é o cartaz da peça onde Manuel José Aranha fez a sua estreia no teatro. Curiosamente foi também através da mesma que surgiu pela primeira vez em palco, no dia 30 de Abril de 1967, esse grande fadista da Chamusca e de Portugal, Manuel João Ferreira, com apenas 9 anos, a cantar "Uma Migalha de Gente", poema da autoria da poetisa e encenadora deste espectáculo de grande sucesso, Maria Manuel Cid.
Elenco da peça o Lugre que, no dia 23 de Outubro de 1970, se exibiu com grande sucesso no Teatro Monumental, em Lisboa, durante o Concurso Nacional de Teatro Amador, onde viria a obter um excelente 3.º lugar. Referência ainda para a exímia encenação de Vítor Hugo Marques.
- Também fez a apresentação de espectáculos e tinha uma forma peculiar
de o fazer, escrevendo os próprios textos, ou quadras. Havia em si também uma
vontade de ser poeta?
A vontade de intervir oralmente em reuniões públicas
faz parte da minha maneira de ser. Talvez seja hereditário. O meu pai também
gostava muito de discursar, daí talvez a minha “queda” para apresentador de
várias reuniões ou espectáculos. Como sempre tive alguma facilidade para
escrever pequenos textos e como a poesia também me seduz, despertou em mim a
curiosidade de experimentar, sendo assim um fazedor de versos que nunca se
considerou poeta. O que escrevi, em verso ou em prosa era, em regra, para dizer
nas acções em que participei. Mas essa febre passou-me. Hoje as ideias chegam e
partem quase sem deixar rasto.
- O seu prazer de fazer versos estendeu-se também “Ao Enterro do Galo”.
Durante anos, conjuntamente com o seu irmão Custódio Aranha, foi um dos
principais dinamizadores daquele espectáculo na Chamusca. Como é que analisa o seu
contributo e a existência desta
tradição?
O meu querido e saudoso irmão Custódio Aranha, talvez
o chamusquense mais activo e participativo na vida associativa da nossa Terra,
mobilizou-me para estas andanças precisamente porque eu tinha gosto e algum
jeito para construir frases e rimas. Como o “Enterro do Galo”, ao encerrar o
Carnaval, não é mais do que um balanço crítico anual das “calhandrices” e dos
comportamentos menos recomendáveis da nossa gente e do nosso ambiente, lá
estive eu a escrever, a pregar e algumas vezes a ser incomodado pelas “bicadas”
O “Enterro do Galo” é o descarregar da pressão que os
“alternados calhandreiros” e as “refinadas alcoviteiras” possuem, para rir e
escarnecer dos outros, mas também para se envergonharem das piadas sobre si
próprios. É uma tradição bastante antiga, que começou no Sport Chamusca e
Benfica e se reportava aos pontos íntimos e críticos daquela colectividade,
isto numa altura em que os bailes de Carnaval eram a principal actividade das
colectividades desta Terra.
Através dos
tempos o “Enterro do Galo” ganhou asas e sobrevoou toda esta Comunidade de
gente boa e maldizente.
Duas fotografias do "Enterro do Galo" realizado no Sporting Clube Chamusquense, em anos diferentes, onde não aparece Manuel José Aranha, mas que são a prova do seu contributo para que este espectáculo de tradição tenha sobrevivido e envolvido outras pessoas. Manuel João Laurentino foi, sem dúvida, uma Figura marcante na continuidade destas noites.
Abaixo transcrevo algumas quadras de Manuel José Aranha, ditas no "Enterro do Galo" dos anos 60.
Não tenhas tanta peneira
Não pintes tanto a carita
Se não és assim tão feia
P’ra que queres ser tão bonita.
Não uses tu mini-saia
Se não tens pernas p’ra isso
É que enquanto houver presunto
Eu não quero ver chouriço.
Com estes modos e trajos
Que é de partir colheres
Ainda casam dois homens
Ou casam duas mulheres.
Quando ontem a luz fraquejou
E ficou quase apagada
Aumentou a produção
Da velha marmelada.
Dizia as retretes públicas
Uma virtude é esperar
Mas quem é que tem paciência
Estando à rasca p’ra cagar.
- Este seu envolvimento social e cultural acabou por o conduzir à política. Quais eram os seus objectivos quando aceitou ser Vereador da Câmara Municipal da Chamusca?
A revolução de Abril de 1974 e a mudança de regime
transformou a nossa forma de viver e o cidadão comum foi chamado a participar
nos órgãos de decisão deste país. Eu era tipógrafo, na flor da idade, e não
fiquei alheio a essa transformação. Sem objectivos especiais, aceitei fazer
parte da Vereação da Câmara Municipal da Chamusca a convite de um partido
político, mas como independente, e assim fui eleito Vereador em 1986 para um
mandato de 4 anos. Foram-me atribuídos os pelouros da Cultura e do Desporto,
cargos que, em consciência, penso que desempenhei o melhor possível, atendendo
às condições de empregado de uma empresa gráfica, sem dispor do tempo
necessário para um melhor desempenho.
- O que é que lhe ficou dessa experiência?
Foi uma experiência muito enriquecedora, pelos
contactos, pela noção dos factos, pelo conhecimento que tomei do nosso concelho
e da nossa região. Deu-me a conhecer também a força dos partidos políticos nas
decisões que são necessárias tomar. Foi uma experiência que me disse ainda; «tu
não nasceste para político.»
- É mais fácil realizar obra como político ou cidadão anónimo e
independente?
Acho que um cidadão anónimo e independente, com
inteligência e vontade de trabalhar, pode realizar uma obra melhor do que o
político, que tem que seguir as orientações do seu partido. Mas penso também
que é cada vez mais difícil encontrar alguém assim.
1991 - Quadro "As Senhoricas" - Manuel José Aranha, Francisco Monteiro, Céu Campos e Teresa Malaquias.
- Entretanto, devido à sua vida pessoal, foi-se afastando da cultura
activa, apesar de continuar a assistir a alguns eventos. Nesta perspectiva,
qual é a sua opinião sobre o momento cultural da Chamusca?
Os anos pesam e a saúde ou a falta dela também. Embora
afastado da cultura activa, continuo a apreciar e a aplaudir os eventos e as
pessoas que os promovem. São valores que não se devem perder e sempre que posso
apareço nessas acções.
O momento cultural da Chamusca, no contexto em que
vivemos, é bom e recomenda-se e isto porque depois de uma época de ouro que a
Chamusca viveu há uns bons anos atrás, fez uma travessia no deserto e hoje
despontam no nosso meio valores que colocam a cultura no lugar que lhe
pertence, seja no teatro, na escrita, na música e em tudo o que nos enriquece
neste campo.
1991 - Reposições das Revistas "Na Cepa Torta" e "Salsifré" - Manuel José Aranha, Raul Caldeira, Manuel Condeço, Teresa Malquias entre outros.
1991 - Reposições das Revistas "Na Cepa Torta" e "Salsifré" - Manuel José Aranha, Raul Caldeira, Manuel José Lino, Maria Emília Vacas, Manuel da Silva Santos, entre outros.
- Sente-se satisfeito com o seu trajecto, ou ainda havia mais para fazer?
À parte a minha vida profissional, no meu trajecto
social dei muito do meu tempo à vida associativa da minha Terra. Fui membro
Directivo de todas, ou quase todas, as Colectividades e Associações da
Chamusca. No desporto, pratiquei futebol na nossa Terra e na tropa fui ainda
pescador desportivo e Director. Na área cultural fiz tudo aquilo que atrás
referi. Penso que foi um trajecto interessante e bem preenchido, mas não tenho
dúvidas que fica sempre alguma coisa por fazer.
- Que mensagem final gostaria de deixar?
Com esperança que o Mundo e a vida melhorem, deixo
esta mensagem: vamos apoiar e incentivar os valores que temos e que vão
surgindo, transmitindo-lhes a confiança necessária para que o nosso futuro seja
muito melhor.
Comentários à entrevista:
Comentários à entrevista:
- João Godinho QUANDO ESTA ENTREVISTA SAIU,NÃO FIZ NENHUM COMENTÁRIO SOBRE A MESMA NEM SOBRE O ENTREVISTADO,FUI UM POUCO INJUSTO,MAS PENSO QUE AINDA VOU A TEMPO,PORQUE PENSO EU QUE NÃO É MUITO FÁCIL FALAR DE UM HOMEM COMO MANUEL JOSÉ ARANHA,UM HOMEM QUE EU CONHEÇO Á 61 ANOS,UM HOMEM COM UM H.BEM GRANDE QUE SEMPRE FEZ E AINDA CONTINUA A FAZER MUITO PELA SUA NOSSA VILA,UM HOMEM BASTANTE HUMILDE,AMIGO,SINÇÉRO,LUTADOR,AFÁVEL,UM HOMEM BASTANTE EDUCADO E RESPEITADOR POR TUDO AQUILO QUE O RODEIA,UM HOMEM SEMPRE COM UMA PALAVRA AMIGA,PARA TODOS,UM HOMEM MUITO AMANTE DA CULTURA,DESPORTO,DA POLITICA DO SEU CONCELHO E NÃO SÓ,UM DOS BONS HOMENS QUE A NOSSA VILA TEM,PARTICULAR-MENTE UM HOMEM QUE EU MUITO ADMIRO E RESPEITO POR SER QUEM É E COMO É PARA TUDO E PARA TODOS,BEM HAJA SRº MANUEL JOSÉ ARANHA,DESEJO-LHE TUDO DE BOM PARA SI E PARA TODOS OS SEUS,COMO CHAMUSQUENSE AGRADEÇO-LHE POR TUDO QUANTO FEZ PELA NOSSA BONITA VILA QUE É A CHAMUSCA..UM FORTE ABRÁÇO DE MUITA AMISADE E RESPEITO.BEM HAJA
Um homem, com H GRANDE, Senhor de uma enorme inteligência, com muita cultura. Ótimo colega, Sempre pronto a ajudar os outros. OBRIGADA Manel Zé Aranha. Um abraço.
ResponderEliminar