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domingo, 24 de abril de 2016

PARABÉNS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DA CHAMUSCA




Parabéns Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca pelo 66.º aniversário, que se comemora hoje dia 25/04/2016.
Este blogue já lhe dedicou um tributo, publicado em 01/08/2014, com o título BOMBEIROS, A CHAMA DA SOLIDARIEDADE, contendo uma resenha histórica, várias fotografias, entrevistas e outros aspectos elucidativos do desenvolvimento, trabalho, coragem e dedicação dos homens e mulheres, Bombeiros, empenhados em colaborar e contribuir para uma CAUSA SOLIDÁRIA.
De todo o modo falar sobre este Movimento de Humanidade dos Bombeiros é um assunto que não se esgota com a publicação de um único trabalho. O seu dia-a-dia continua a ser o de zelar pela segurança e pelos cuidados a prestar às populações, com uma motivação imensa e sempre renovada.
Com a eleição em finais de 2015 de um novo Comandante, Rui Miguel Saramago, e também de um novo Presidente, José Monteiro Januário, para além do mérito das distinções atribuídas a elementos com muitos anos de trabalho, esforço e entrega completa a esta Causa, como são exemplos os subchefes António Emílio dos Santos Rodrigues e Ernesto Martinho Cegonho, parece-nos ser importante mais uma vez falar sobre as experiências destes homens, conhecer as suas ideias, anseios e sentimentos, com o enorme Agradecimento, Admiração e Respeito que merecem todos aqueles que pertencem à Solidária e Fraterna FAMÍLIA DOS BOMBEIROS.

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Muito obrigado ao meu Amigo João José Matias Bento, um Homem que tem colaborado, participado e sido o grande divulgador das várias actividades que se vão desenvolvendo pelo Concelho da Chamusca (também ele membro da direcção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca, desde 2002, fazendo parte do Conselho Fiscal), que colheu as entrevistas, tirou e solicitou as fotografias que tornaram possível esta publicação, que pretende igualmente sensibilizar a população, sobretudo os mais jovens, para participarem mais activamente numa causa que deve ser Sentida e ABRAÇADA por todos nós.


Declamando um poema durante um evento realizado na Biblioteca Municipal da Chamusca.

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José Monteiro Januário, 55 anos de idade, engenheiro civil, de profissão, está há poucos meses à frente dos destinos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca, como Presidente da Direção, eleita nos finais de 2015.

Que motivações o levaram a disponibilizar-se para integrar os quadros diretivos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca?

Há uns anos, não consigo precisar quantos, numa sessão solene por altura do aniversário dos Bombeiros, tive a honra de receber uma medalha dedicada ao meu avô José Máximo dos Santos, como fundador da Associação. O ato em si muito simples, mas de enorme significado para mim, despertou-me para uma realidade até então desconhecida, que o meu avô tivesse sido um dos fundadores. A medalha é uma recordação que guardo religiosamente com um enorme carinho e orgulho. Mas o sentimento e principalmente respeito que tenho pela Associação, sobretudo pelo trabalho dos voluntários, destes homens que fazem a Associação, surgiu nos fogos de Agosto de 2003. Foram momentos de grande sofrimento para todos, que não esqueço, tendo dado e colocado o meu contributo voluntário à disposição do nosso Município na elaboração dos projetos de todas as novas habitações que foi necessário construir por todo o Concelho para albergar os desalojados.

Há quantos anos integra as direções?

Integrei os elementos da Mesa da Assembleia nos 2 mandatos anteriores. Tenho participado e apoiado a Associação há vários anos com o meu trabalho na minha área profissional, sempre que me foi solicitado.

Lidar com Eurico Monteiro incentivou-o ainda mais para vir a pertencer e a colaborar com aos Bombeiros?

O ex-Presidente Eurico Monteiro é uma referência para todos nós, ao qual a Associação será eternamente grata pela dedicação de muitos anos ao seu serviço. Tive a sorte de estar envolvido nalguns projetos com ele, dos quais resultou uma amizade e respeito mútuos. A morte repentina e inesperada do Eurico ocorreu poucos dias antes das eleições para os novos corpos gerentes 2016/2019, essa é a razão primeira que me levou a encabeçar a lista da nova Direção, no respeito pelo seu trabalho e pela sua memória.

Acompanhado pelo ex-Presidente Eurico Monteiro na inauguração do novo edifício de apoio dos bombeiros.


Eurico Monteiro emocionado perante a placa e a homenagem, através das quais  a Associação lhe prestou o merecido agradecimento ainda em vida.

Está muito ligado à construção do novo edifício de apoio aos Bombeiros?

Em 2009/2010, a Direção convidou-me para elaborar o projeto do novo edifício de apoio, que avançaria para a construção na eventual possibilidade de financiamento e comparticipação comunitária. Tivemos a sorte do projeto que apresentámos em Lisboa ser um dos contemplados e aprovados de entre as dezenas de projetos apresentados pelas várias Associações, e eu principalmente tive a honra de o projetar, acompanhar, fiscalizar e inaugurar.




Descerrando a placa de inauguração do novo edifício de apoio

A placa da inauguração e o agradecimento.

Como é que surgiu o convite para assumir a presidência da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca?

Era impensável para mim, há uns meses atrás, ser um dia Presidente desta Associação. Tenho uma vida profissional muito preenchida, 90% do meu trabalho é fora do Concelho o que me obriga a muitos km de estrada. Faço serão todos os dias, trabalho muitos fins de semana, tenho uma dedicação quase doentia (mesmo muito doentia segundo a minha família) à minha profissão e ao meu trabalho. Há, contudo, momentos da nossa vida em que não podemos voltar costas às responsabilidades, e a lacuna da morte do Eurico obrigou-nos a tomar decisões rápidas, das quais resultou a proposta dos restantes elementos de encabeçar a lista. Não sei se foi a escolha certa pelos muitos defeitos e inúmeras limitações que entendo ter para a responsabilidade deste cargo, mas é um projeto que abracei desde a primeira hora e ao qual me dedico a 100%.

Como foram estes primeiros meses de mandato como presidente? Tem sentido o apoio de todos?

Estes primeiros meses de mandato (já me parecem anos) têm sido principalmente de aprendizagem e adaptação a realidades até agora desconhecidas. Não é uma tarefa fácil, ocupa muito do meu tempo, mas não o considero tempo perdido, pelo contrário, tem sido uma experiência aliciante e muito enriquecedora. Os defeitos e limitações que referi têm-se ultrapassado com o apoio dos restantes elementos da Direção, dado que funcionamos como um todo com objetivos comuns. Contamos na Direção com dois pesos pesados, com muitos anos de experiência e sabedoria, os comandantes Manuel Rufino e João Saramago que nos têm ajudado, elucidado e principalmente orientado na tomada das decisões mais importantes e complexas, principalmente nas áreas ligadas ao pessoal e à operacionalidade que se pretende do corpo de bombeiros. Temos um quadro de comando e de pessoal que entendo ser de excelência e nos facilita a gestão corrente.

Como Presidente, preocupa-o a renovação do corpo ativo dos bombeiros?

O nosso corpo ativo de Voluntários é dos mais reduzidos do Distrito. Esta é uma dura realidade que encontrei e que se tem vindo a agravar ao longo dos anos, um problema grave de estrutura operacional de voluntariado, para a qual não temos nem sabemos qual a solução imediata mas que pretendemos reverter. Será uma tarefa difícil, mas é nosso objetivo, a partir de Maio, iniciar ações de sensibilização junto dos jovens pelo Concelho e dinamizar ações de natureza cultural, desportiva e social que levem os jovens a procurar, a conhecer e integrar a nossa casa.

Qual o estado do parque de viaturas?

O parque de viaturas está dimensionado e foi recentemente estruturado e renovado para a prestação dos cuidados de saúde e de emergência que prestamos, entendendo-se não ser de momento necessária qualquer restruturação.


                Com a mulher, ladeado por algumas viaturas da Associação.

Continua a haver um grande relacionamento com a Câmara Municipal da Chamusca?

A Câmara Municipal de Chamusca é o maior parceiro dos bombeiros e, sejamos francos e honestos, sem os protocolos celebrados entre Associações e Municípios seria de todo impossível manter qualquer estrutura operacional em normal funcionamento e com alguma saúde financeira. Mas a responsabilidade primeira do Município é a de servir a população e o seu Concelho, sendo essa também a nossa prioridade.  Convergindo para objetivos comuns é fácil o entendimento e tem sido excelente o relacionamento.

Qual o seu incentivo e a sua mensagem aos Bombeiros e à população do concelho da Chamusca?

Aos Bombeiros o meu apreço, o meu respeito pelo trabalho e dedicação que demonstram dia a dia no exercício da sua função e a garantia da minha total disponibilidade. À população, principalmente aos jovens, um incentivo a que nos procurem, se juntem a nós e nos ajudem a dar continuidade a esta missão de dar um pouco de nós aos outros. Aos sócios que sejam mais responsáveis, participativos e interventivos nas sugestões e decisões desta casa que é de todos, principalmente nas Assembleias que continuam ano após ano, totalmente esvaziadas. 


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Para Rui Miguel Saramago, 43 anos, o quartel dos Bombeiros da Chamusca é a sua segunda casa. Desde criança que começou a frequentar aquela Associação. Foi pela mão de seu pai, João Saramago (antigo adjunto e segundo comandante) que entrou para os Bombeiros, há 28 anos, dando início a um percurso de muito trabalho, empenhamento e dedicação. Há cerca de três anos foi proposto para ajudante de comando, tendo tomado posse como Comandante há cerca de um ano, por proposta de Manuel Rufino, ex- comandante, e da direção, devido às suas qualificações adquiridas nos diversos cursos que frequentou durante vários anos.

 Que motivações o fizeram vir para os Bombeiros?

O que me trouxe para os bombeiros foi a influência de meu pai, que desde muito novo me trazia com ele para esta casa, onde comecei a familiarizar-me com a família dos bombeiros, onde era muito acarinhado e incentivado. Também fui durante muitos anos a coqueluche dos mais velhos, que com as suas brincadeiras e ensinamentos me prepararam para aquilo que sou hoje.
Por outro lado, vir para os Bombeiros era ter acesso a coisas que os jovens lá fora não tinham, por isso fui ganhando gosto por esta causa, não só eu mas também outros jovens. Agora tudo mudou, houve uma grande mudança, na ordem dos 360 graus, relativamente aos jovens se identificarem e gostarem dos bombeiros. Agora têm tudo, mas falta-lhes muito amor ao próximo e também a esta causa.

A continência do pai, João Saramago.

Como é que os bombeiros mais velhos recebiam os mais novos na época em que começou?

Recebiam-nos sempre muito bem, havia um grande carinho, muita amizade e um grande respeito mútuo Isso aconteceu comigo que cresci cá dentro e fui durante muitos anos a mascote dos bombeiros, servindo para as suas brincadeiras (praxes, mas sem haver maldades). Desse modo aprendi a ganhar experiência, o que me fez evoluir como pessoa e muito como bombeiro, já que era visto como homem integrado na família dos bombeiros. Tudo isto foi muito vantajoso, porque adquiri muitas aptidões, nestes 28 anos, com as histórias de vida dos mais velhos. Com estas lições de vida não trilhei outros caminhos menos corretos, o que aconteceu com alguns jovens daqueles tempos que não foram capazes de se integrar nestas e noutras causas. Este relacionamento foi muito bom e tenho um carinho muito especial por todos.


Acompanhado de um dos bombeiros mais antigos, Manuel João Nalha de Oliveira

Muitos fogos, muitos acidentes, mas há sempre aqueles que deixam as suas marcas?

Estes 28 anos foram de muita atividade e ficam sempre na memória algumas situações que deixam as suas marcas. Recordo aqui um grave acidente de viação, ocorrido na Murta, onde estiveram envolvidas três viaturas. Nós fomos chamados e deparamos com feridos bastante graves, entre eles uma jovem de 6 anos, a quem fizemos tudo para a reanimar, mas não foi possível salvá-la. Também lembro o acidente com o Jorge Barreiras, natural de Ulme, que muito me marcou e de quem era muito amigo.
Quanto a fogos, eu não fujo à regra, os que mais me marcaram foram os fogos de 2003 na Chamusca. Mais de 20 mil hectares de floresta e culturas desapareceram em poucas horas.
Senti uma grande impotência por querer chegar a todo o lado e não conseguir, porque o fogo estava a alastrar pelo concelho fora. A violência dos incêndios, as mortes e a dor das famílias ainda mexem com o meu íntimo. Também foi marcante porque estava de férias e fui chamado para voltar o mais rápido possível, porque a Chamusca estava em chamas e tinha a consciência que era urgente vir cumprir a minha missão.


         Agosto de 2003. O contraste entre as cinzas da charneca ardida e do verde da lezíria. 



       Agosto de 2003. Bombeiros lutando contra uma das frentes dos fogos.


Que diferença nota dos tempos em que entrou para os bombeiros e o momento atual?

Houve uma grande evolução naquilo que é a organização dos bombeiros. Deu-se uma grande restruturação. Todos os 37 homens no ativo têm as devidas competências para atuar nas mais diversas áreas.


Corpo activo dos Bombeiros depois de um exercício de derrame de produtos tóxicos.

No que se refere às infraestruturas estamos bem. A Associação tem feito um esforço enorme para dotar o corpo ativo das melhores condições para que estejamos sempre operacionais. Este é um trabalho na linha do que vinha sendo feito pelo antigo comandante, Manuel Rufino.
Sei que nem sempre se tem tudo, mas só com o tempo se vai gerindo o que falta e o que é mais prioritário dentro das disponibilidades da Associação. Volto aqui a frisar que a nível de equipamento e formação, estamos bem, mas a grande lacuna é a falta de aderência ao voluntariado, sobretudo dos jovens.

Esperava alguma vez ser nomeado ou convidado a assumir o Comando do corpo ativo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca?

Sou bombeiro de carreira. Não vou dizer que não pensava e não gostava de assumir esse cargo, mas para isso suceder teria que haver condições para tal. No ano de 2013 fui convidado pelo ex-comandante Manuel Rufino, com a concordância da direção, para assumir as funções de adjunto de comando e posteriormente a de comandante. Abracei com o meu total empenhamento estas funções propostas pela direção e pelo comando.
Sei que não agrado a todos, mas acima de tudo está o bom nome dos Bombeiros. Com tão pouco tempo no cargo de comandante, pouco ou nada se nota, só o tempo e a experiência adquirida poderão confirmar a minha capacidade de liderança.



O ex-comandante Manuel Rufino que, com uma experiência de muitos anos de comando, viu em Rui Saramago competências para assumir o cargo de Comandante.

                              No seu primeiro discurso como Comandante.


Com a mulher e os filhos. Muito importantes no seu trajecto familiar e profissional.

Esta sua nomeação para comandante foi bem aceite pelos seus companheiros?

Cada um vale o que vale, são 40 cabeças a pensar e de formas diferentes e nunca se pode agradar a todos. Eu não fui nomeado para agradar, estou aqui para comandar e elevar o bom nome da Associação e do seu corpo ativo. Só com o grupo todo unido me é possível comandar. Tento ser o mais assertivo possível, basta não se cumprir as regras e lá está o comandante a ter que intervir.
Quando assumi o comando, tive algum grau de dificuldade. Isso foi evidente. Bombeiro há 28 anos, conheço todo o pessoal, fui com eles bombeiro de carreira, relacionando-nos no dia a dia. Mas agora o comportamento da minha parte é diferente, porque a minha função é outra, contudo há um grande respeito e frontalidade por parte de todos os bombeiros.


Marchando unidos por causas fundamentais: elevar o bom nome da Associação e servir as populações.

É difícil dirigir pessoas?

É bastante complicado, num sistema onde há muitas regras, onde tem que imperar a disciplina e o bom comportamento. O que agora se nota é que não há o serviço militar obrigatório, pois era na tropa que se aprendiam muitas das regras disciplinares. Não havendo essa experiência, é necessário incutir no espirito dos bombeiros mais novos todos esses conceitos, o comportamento, o cumprimento de regras e determinações. Por isso digo muitas vezes que a tropa foi a minha segunda escola, onde eramos educados, disciplinados, onde havia regras e horários, formaturas e muitas outras coisas que agora têm que ser aqui ministradas e aprendidas, o que para muitos é complicado, porque todos procuram os seus direitos, mas é preciso dizer-lhes que também têm deveres.

Estamos na parte final da nossa entrevista, uma palavra de sensibilização aos Bombeiros e à população da Chamusca?

Quanto aos Bombeiros, louvo o grande esforço familiar que fazem, a sua abnegação e dedicação, abdicando do seu tempo, do lazer, do convívio dos seus.
Para os jovens da Chamusca uma simples mensagem, que comecem a despertar e a viver mais para a causa dos bombeiros. Eu tenho uma mão cheia de nada para lhes oferecer. Os incentivos ao voluntariado não existem. As instituições ao nível nacional terão de olhar com outros olhos para a questão do voluntariado, criando incentivos para que os jovens olhem para os Bombeiros de outra forma.
Contudo tenho uma coisa muito importante para dar a essa juventude, que é o fazer o bem sem olhar a quem, estar próximo das pessoas, porque ser bombeiro é isso mesmo, participar numa missão de solidariedade.
 Relativamente à população o que posso garantir é que somos poucos, mas estamos altamente treinados e preparados para responder a todas as solicitações que as pessoas nos façam e a ajudar quando necessitem. Gostava que nos vissem sempre desta forma e com o nosso lema sempre presente “ Vida por Vida”.  


As pessoas do Concelho da Chamusca também acompanham com muito empenho a vida da sua Associação de Bombeiros. Nesta ocasião, no dia 25/04/2015, nem a chuva aos desmobilizou nas comemorações do 65.º aniversário, que contou com a presença do Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares.

                                                            *****



António Emílio Rodrigues, 58 anos de idade, entrou para os Bombeiros, em 1975, foi distinguido com o Crachá de Ouro, pela Liga dos Bombeiros Portugueses, no dia 25 de Abril de 2015, dia dos 65 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca, pelo seu total empenhamento, dedicação e disponibilidade ao longo de todos estes anos ao serviço do bem comum.

O que é preciso um bombeiro fazer para merecer a enorme distinção de receber o Crachá de Ouro, da Liga dos Bombeiros Portugueses?

Penso que isso só foi possível e se deveu à minha dedicação aos Bombeiros da Chamusca nestes 40 anos. A qualquer hora do dia ou da noite, estive sempre disponível para servir a causa de dar “ Vida por Vida”. Estive sempre disponível para colaborar com a Associação e com o Corpo Ativo.

                                        O diploma do crachá de ouro.

O que é que sentiu quando foi chamado para receber o Crachá de Ouro?

Não há palavras para descrever a minha emoção. As lágrimas de alegria correram-me pela cara abaixo. Só desconfiei quando me mandaram retirar as medalhas que tinha ao peito e pensei que algo se ia passar. Estava longe de tal ideia de ser agraciado com o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, pela dedicação à Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca. Este foi um dia que ficará para sempre na minha memória.

De rosto emocionado, enquanto aguardava ser agraciado com o crachá de ouro.

O ex-Presidente da Associação, colocando-lhe a crachá de ouro sob o olhar do Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Nesta sua longa atividade, teve que acorrer e intervir em muitas ocorrências, qual a que lhe deixou mais marcas?

Ao longo da minha vida nos Bombeiros fui solicitado para muitas e muitas ocorrências. Fogos, acidentes e tantas outras, mas a que deixou marcas muito profundas foi o fogo de 2003 na Chamusca. Sentir que tudo o que sabíamos e tínhamos aprendido não chegava. Sentíamo-nos impotentes, porque queríamos chegar a todos lados e não conseguíamos combater a tragédia que se abateu sobre o concelho da Chamusca.


   O fogo de 2003 chegou à Rua do Vale, no centro da Vila da Chamusca.



Conseguiu transmitir à família o bichinho dos Bombeiros!?

Realmente isso aconteceu comigo. Tenho um filho de 34 anos que é atualmente bombeiro de 2.ª. Veio para cá muito jovem e tem nesta altura várias formações na área do socorro e incêndios e grandes responsabilidades no corpo ativo dos Bombeiros da Chamusca.

       O seu filho, Luís António Rodrigues, durante um exercício de simulação.

Espera continuar ainda muito tempo nos Bombeiros?

Quero continuar pelo menos até aos 60 anos. Depois terei de ver como estou fisicamente e se as minhas capacidades se mantêm. Se vir que não consigo, solicito o Quadro de Honra. Mas o que eu gostava realmente que acontecesse, enquanto estou no ativo, é que a malta mais nova viesse até aos bombeiros com mentalidade e a certeza de poder ajudar os outros.


*****


Ernesto Cegonho, 71 anos de idade, está nos Bombeiros Voluntários da Chamusca desde 1971. Apesar já não fazer parte do ativo está no Quadro de Honra e continua a dar o seu contributo empenhado na direção da fanfarra. Nos festejos dos 65 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Chamusca, foi homenageado precisamente pela sua dedicação à fanfarra.

            Tem uma longa vida ao serviço dos Bombeiros?

            É verdade. São já cerca de 45 anos ao serviço de uma grande causa. Apesar de já estar no quadro de Honra, ainda por cá continuo e sinto-me muito bem junto dos jovens dirigindo a fanfarra.

            Que momentos mais o marcaram nestes quase 45 anos, ao serviço dos Bombeiros?

            Tive momentos muito difíceis, como os fogos de 2003, mas o que mais me ficou na memória foi o fogo na casa de habitação da D.ª Maria José Guimarães. Depois de retirar alguns bens materiais, ao sair pela janela e quando já estava a alcançar a escada de incêndio o teto ruiu. Foi por segundos que não fique lá debaixo.

            O que é que sentiu ao ser homenageado pelo seu empenho ao serviço da fanfarra da Associação?

Senti-me muito satisfeito e feliz, porque reconheceram o meu trabalho na formação da fanfarra e o facto de ter conseguido fazer a sua renovação, havendo agora mais qualidade entre os elementos que a compõem. Tudo isto era motivo de orgulho para o presidente Eurico Monteiro e para a Direção da Associação.


Recebendo a placa de homenagem das mãos de Eurico Monteiro, ex-Presidente da Associação.

                                   A satisfação de ter sido distinguido.


                                               A placa da homenagem.

            Como é que surgiu a ideia de formar uma fanfarra nos Bombeiros da Chamusca?

            Quando estive na tropa toquei numa charanga. Houve até um sargento que me pediu para eu tocar tambor e caixa e a coisa resultou. Ainda toquei também contrabaixo.
Quando vim, em 1974, encontrei uma pequena fanfarra nos Bombeiros da Chamusca, onde toquei, mas durou pouco tempo. Passados que foram alguns anos falei com o 2.º comandante, João Saramago, e disse-lhe que tínhamos que organizar uma fanfarra. Ele respondeu-me que se ia pensar nisso, mas o tempo foi passando e só na direção liderada pelo Eurico Monteiro (já falecido), foi possível concretizar essa aspiração, porque também ele gostava muito de fanfarras.

            Como lhe chegou o convite para dirigir a fanfarra?

            Foi de uma forma muito simples. Um dia ao escutar o rufar dos tambores não resisti e o maestro, que era de Minde, mandou-me tocar tambores. Ao ouvir-me, falou com o comandante dos Bombeiros e disse-lhe: “Já temos maestro.”

            Na fase inicial da Fanfarra não haviam tantos jovens?

            É verdade. Era constituída por homens mais velhos, que até eram meus amigos, e que talvez não gostassem da parte onde tinham de ter regras e que não aceitavam tantos jovens na fanfarra. Com a saída de alguns deles tive de reunir gente mais jovem, que é agora a maioria esmagadora dos músicos da fanfarra.



No regresso ao Quartel depois de mais uma actuação pelas ruas da Chamusca, sendo visível o elevado número de jovens que compõem a fanfarra.





            Como é lidar com estes jovens?

            É muito gratificante, comecei por lhes ensinar a estarem em formatura, a obedecer nos ensaios e nas atuações. Já atuamos em procissões, festas e arraiais, desfiles, festas de Natal e inaugurações. Recentemente estivemos em Almeirim, no lançamento da primeira pedra do edifício dos Bombeiros.


                                       Numa actuação pelas ruas de Lisboa.

            Os jovens aderem muito à fanfarra?

             Sim, têm vindo até nós vários jovens. Alguns estão cá pouco tempo, mas outros querem mesmo seguir na fanfarra. Sinto-me feliz por estar com eles, todos me respeitam, e por isso enquanto puder e me deixarem irei andar por cá.



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Quadro contendo os cargos, o número de sócio e os nomes dos actuais membros da Direcção

     






sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SÉRGIO CARRINHO, UM PEDAÇO DE HISTÓRIA


Nascido em 18/01/1949, na freguesia do Pinheiro Grande, SÉRGIO CARRINHO é uma das pessoas que mais contribuiu para o desenvolvimento do concelho da Chamusca.
É uma Figura da História local e regional e também uma referência a nível nacional pela sua longevidade num cargo autárquico.
 É um homem simples, avesso a falar sobre si próprio e que não gosta que deem uma importância exagerada ao seu trabalho como autarca, que segundo o próprio se guiou sempre por uma forte ligação emocional ao seu Concelho.
É também uma pessoa de trato fácil, daí a relação de simpatia que mantemos há vários anos.
O texto que se segue é, sobretudo, uma conversa de amigos, ocorrida no seu cantinho “Mercearia da Quinta”, no Pinheiro Grande.
Apresento-a neste blogue, por entender que são referências humanas como esta que dignificam a Chamusca e que conferem à Pessoa e à Terra a atenção e o respeito que Elas merecem.



Como se processou a sua vida familiar durante a infância?

Eu era o filho mais velho, só depois nasceram os meus três irmãos, a Ivone, o José Augusto e o Manuel. Vivia aqui nesta casa com os meus avós e os meus pais, num espaço onde já tinham vivido também os meus bisavós e fora uma loja e uma taberna onde eles faziam a sua vida e os seus negócios.
A minha família não era das mais pobres. Mas vivíamos o tempo do pão de milho, da couve com feijão e da sardinha para três. Tínhamos uma horta e nunca passámos fome. Como eu era a criança mais velha ajudava nas tarefas familiares, como por exemplo ajudando na horta e nas searas de milho que os meus pais faziam. A nossa vida seguia o ciclo das estações do ano. No Inverno com a chuva, o frio e as cheias do Tejo recolhíamo-nos mais em casa. Na Primavera faziam-se as sementeiras e no Verão as colheitas. Actividades em que eu participava.


O seu pai, à direita da foto, com um amigo.

A sua mãe, à direita na foto, acompanhada por duas amigas durante uma pausa no seu trabalho de descamisar o milho. 

Mas também haviam os momentos de convívio e de lazer, com os bailes na Aldeia ou quando, levando o farnel, nos deslocávamos a pé à Feira de S. Martinho, ou à Ponte da Chamusca para festejar a Quinta-feira de Ascensão e ali passarmos o dia.
No mais, em criança sempre vivi protegido pela atenção dos meus avós. Recebi deles e também da minha mãe os melhores ensinamentos, uma vez que o meu pai não podia estar tão presente, pois passava grande parte do dia a trabalhar. O meu avô ensinou-me a definir as estações do ano, o que era uma aurora boreal, a conhecer as estrelas, como é que os animais se reproduziam, como é que se tratavam os cavalos e os burros, o funcionamento das máquinas agrícolas e a tarefa de descamisar do milho.


Com a sua irmã Ivone e o avô Manuel Faustino o seu grande professor (que viria a falecer de tuberculose pouco tempo depois desta foto ser tirada). 

Fui, portanto, uma criança bem integrada e feliz com a família. Nessa fase da infância só me faltaram as crianças da minha idade para brincar e com as quais só vim a relacionar-me quando fui para a escola.


Com os irmãos, Ivone, José Augusto e Manuel, as crianças que mais preencheram a sua infância.

Como é que se deu essa adaptação à escola?
Deu-se muito bem. Os ensinamentos e a atenção que recebi dos adultos permitiram-me chegar à escola com outra bagagem que os outros meninos não tinham. Tornaram-me mais observador dos gestos, dos hábitos e do enquadramento social e foram muito úteis para a minha formação.
Devido a isso fui logo sinalizado pela minha professora para, eventualmente no futuro, vir a beneficiar de uma bolsa de estudo quando terminasse a 4.ª classe.
Acabei por ver-me atribuída essa bolsa pelo presidente da Câmara da altura, João Alves Orvalho, que também era aqui do Pinheiro Grande e fui estudar para o colégio na Rua da "Formiga" na Chamusca, fazendo o caminho de ida e volta de bicicleta.

Era um bom aluno?
Nunca fui um marrão, mas sempre fui uma pessoa atenta e com vontade perceber o que me rodeava. Talvez devido a essa fome de conhecimento o primeiro livro que desejei ter foi um dicionário. Como era muito caro a minha mãe comprou-mo com dinheiro emprestado que eu viria a pagar com o salário que ganhei durante os 2 meses de trabalho na minha primeira campanha na fábrica “Spalil”, aos 12 anos de idade.
Por outro lado, dos 10 aos 20 anos, se bem que nos últimos 4 já não tão assiduamente, fui sacristão na Paróquia do Pinheiro Grande auxiliando o Padre Diogo. Esta ocupação deu-me um conhecimento espantoso dos rituais, dos ciclos da igreja e da arte sacra.
Com esta tarefa conheci igualmente muitas pessoas de várias classes, pois participava em missas na Chamusca, no Pinheiro Grande, na Carregueira, no Arripiado e também numa capela particular da família Isidro dos Reis. Aprendi muito sobre comportamentos sociais, culturais e religiosos, que de outra forma não teria tido possibilidade de conhecer e compreender, o que enriqueceu a minha formação.
Como o padre Diogo sempre me tratou muito bem, esse facto também tornou mais fácil a minha integração e aprendizagem do latim, que eu falava de cor, e que foi a única língua usada na Igreja até à investidura do Papa João XXIII, no seguimento do Concílio Vaticano II. 
Hoje ainda sei dizer parte da oração do Pai Nosso em latim e tenho como referência a expressão “Sic Transit Glori Mundi”, cujo significado para mim é “a glória do mundo é transitória” e que é um aviso que deixo para todos os jovens, que pensam em ter tudo da vida o mais rapidamente possível e com o máximo de prazer, esquecendo-se que existe um tempo próprio para todas as coisas, uma realidade, e nada é definitivo.
Essa foi também uma evidência para mim, que mal acabei o 5.º ano, tive que deixar o ensino e voltar-me para a prioridade que era ter uma vida profissional, quando aos 16 anos fui trabalhar a tempo inteiro para a “Spalil”.

Qual foi a sua actividade profissional na "Spalil" e de que forma é que o envolvimento social da maior empresa do concelho da Chamusca contribuiu para a sua formação humana?
Gostava de começar por informar, porque a maioria das pessoas não sabe, que a Spalil – Sociedade de Produtos Alimentares Luso Italiana, Lda teve a sua inauguração em 1938 e foi a primeira fábrica de tomate do país. O que é uma referência não só para a história da Chamusca, como para a memória da indústria portuguesa.



Fotografia tirada nos primeiros anos de existência da "Spalil"

Ali comecei a trabalhar na recepção do tomate, na sua escolha e classificação e era aí que se davam os maiores conflitos, porque ninguém queria que o seu produto tivesse uma desvalorização que tornasse o preço de compra mais baixo. Ali aprendi a lidar com as pessoas e a perceber que mesmo a nível do nosso concelho os comportamentos sociais dos naturais do Chouto, não eram iguais aos do Pinheiro Grande ou da Chamusca. Depois fui trabalhar para o escritório, para a secção de pessoal. Era eu que conferia as presenças e elaborava as folhas de pagamento e assim fui criando uma boa ligação com os trabalhadores, a qual se estendeu igualmente aos seareiros e produtores de tomate, não só porque durante a hora de almoço muitas vezes me disponibilizava para os atender, mas também porque paralelamente fazia as contas com eles, o que me trouxe mais experiência prática e pessoal da vida.
Eu era um puto, mas com a confiança das pessoas e aprendendo com todos, fiz-me um homem numa grande empresa que em 1969 chegou a ter 519 pessoas a trabalhar na campanha de Verão. A Spalil foi, sem dúvida, a minha universidade da vida, pois tive uma formação permanente no terreno que me permitiu perceber e gerir as sensibilidades e deu-me um grande capital de conhecimento e autoconfiança.




Um dos primeiros grupos de trabalhadores da "Spalil".


Rótulo de um dos produtos produzidos na "Spalil".

E como era a vida do adolescente fora dos portões da fábrica?
Com o salário que recebia, juntamente com o que me pagavam para fazer a contabilidade de uma Associação de Agricultores do Pinheiro Grande e do Restaurante Paragem da Ponte, que na altura tinha mais de 30 empregados, comecei a ter alguma autonomia económica para comprar jornais, ler os escritores neo-realistas todos, poder ir mais vezes à Vila da Chamusca fazer vida social e relacionar-me com um grupo que falava bastante sobre assuntos políticos. Comecei a ter uma vida de discussão política mais activa e foi nessa altura, em 1969, que trouxe, debaixo da camisa, dois cartazes com palavras contra o governo, para colar nalguma parede do Pinheiro Grande e que escondi entre a colcha e a parede. Mas como era a minha irmã que fazia a cama, descobriu-os e rasgou-os para que eu não fosse apanhado. Isto eu só o soube depois do 25 de Abril de 1974, quando ela mo confessou.
Houve ainda outro episódio, quando o ministro Gonçalves Rapazote veio dizer, na véspera das eleições de 1969,  que não eram permitidos ajuntamentos com mais de 3 pessoas. Uma noite estávamos 7 companheiros à conversa no Restaurante do “Alentejano”, quando a GNR nos veio ordenar que dispersássemos. Saímos dali, mas fomos sempre juntos Rua Direita abaixo até nos sentarmos à porta do Clube Agrícola. Aí fomos novamente abordados pela GNR que nos intimou a comparecer no Posto às 8 da manhã. Fomos interrogados e foi aberto um processo de investigação sobre nós que durou vários meses. Eu fui condenado a pagar 80 escudos e cinquenta centavos e todos os outros foram também sancionados. Por exemplo a um companheiro que era militar e estava destacado na Guiné, cortaram-lhe a licença de férias. Isso era o pior que se podia fazer a quem, como nós, era contra a guerra no Ultramar.

Mas, apesar de ser contra a guerra no Ultramar, também acabou por ser para lá enviado. Como é que decorreu essa experiência?
Esse era o destino e o castigo de praticamente todos os homens jovens deste país.
Em 1970 fui fazer a recruta para as Caldas da Rainha e a especialidade em Tavira. Depois, em finais de Janeiro, início de Fevereiro de 1971 fui, de facto para a guerra do Ultramar, para a Guiné. Era furriel atirador e fiquei lá 18 meses integrado numa companhia de soldados negros. Fui mesmo para a guerra, porque haviam vária zonas ocupadas pelo PAIGC e era preciso combater no mato.
Foi um momento muito difícil, violento e inútil e fiquei com a percepção ainda mais clara de que a guerra só se dera por uma questão política e só dessa forma poderia terminar, como veio a suceder.



Na Guiné, com alguns dos soldados do seu pelotão.

Quando regressou do Ultramar voltou novamente ao trabalho na "Spalil"?
Sim, em 1973 voltei ao meu posto de trabalho na "Spalil", onde algum tempo depois o processo revolucionário do 25 de Abril me veio encontrar. Lembro-me que nesse mesmo dia, com as notícias da Revolução, formámos um piquete junto do portão da fábrica para não deixar entrar ninguém estranho à empresa. Não queríamos qualquer dano num lugar que sentíamos como nosso e era a salvaguarda económica de muitas famílias.
Depois, seguiu-se uma época conturbada com muitos acontecimentos e mudanças, mas também com muita liberdade. Durante esse período fiz parte da Comissão de Trabalhadores da "Spalil"; participei em campanhas de dinamização cultural organizadas pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), nomeadamente alfabetizando algumas áreas do concelho; acabei o 6.º e o 7.º ano estudando à noite em Torres Novas e, em 1976, casei-me. Nesse mesmo período comecei a ser sondado para participar mais activamente na vida política.

É então que a política activa começa a fazer parte da sua vida?
Não foi uma escolha imediata, mas com toda a minha bagagem de vida profissional e dos relacionamentos sociais que fui estabelecendo ao longo do tempo, pensei que podia ser útil no desenvolvimento do meu Concelho e acabei por aceitar, quando fui convidado para vir a ocupar um eventual cargo político.
Participei nas primeiras eleições para a Câmara Municipal, em 1976, com o Gonçalo Cabaço como cabeça de lista e integrados na candidatura da Aliança Povo Unido (APU). O partido socialista venceu, tendo ficado como presidente da Câmara o Dr. Francisco Romão, mas eu viria a ocupar o lugar de vereador de 1977 a 1979. Tinha então apenas 27 anos.

E daí a Presidente da Câmara foi um passo?
Não posso analisar a situação dessa forma. Quando concorri como cabeça de lista da APU às eleições autárquicas de 1980 e fui eleito, penso que isso só foi possível porque recebi votos da esquerda e da direita. Nunca se tratou unicamente de cor partidária, mas do facto de eu ser uma pessoa que me relacionava bem com todas as pessoas, de todos os estratos sociais, e por me conhecerem.
O que também se realça pelo facto de ser sempre eleito como independente. Nunca fui militante do Partido Comunista. O único partido onde me filiei foi o MDP/CDE.
Nunca perdi qualquer eleição a que concorri para Presidente da Câmara da Chamusca e se ocupei esse cargo durante 33 anos isso só revela o que anteriormente referi, que grande parte da população do Concelho olhava para mim como a pessoa que melhor assegurava a defesa dos interesses da sua Terra.


Reprodução da sua fotografia, incluída nos cartazes da campanha eleitoral de uma das suas primeiras candidaturas à Presidência da Câmara.



Na Carregueira, com Álvaro Cunhal, durante um acção de campanha para as eleições autárquicas.

Neste seu percurso político ao serviço da Autarquia tem algum momento na gestão autárquica que para si tenha tido um maior significado?

            Desde logo ter conseguido fazer chegar a luz eléctrica a todo o concelho, ter construído estradas e escolas, regularizado o abastecimento de águas e criado as infraestruturas pesadas para pôr o concelho a funcionar, foi um trabalho muito importante para todo o executivo.
            Contudo, para mim em particular, há uma situação que me toca bastante e que tem a ver com a criação da Ludoteca em Fevereiro de 1980.
            Tivemos uma médica que prestou serviço no Pinheiro Grande, de nome Manuela Rodrigues que era membro da União de Estudantes Comunistas (UEC) e com uma grande consciência social. Ela veio a contrair um cancro e a passar por muito sofrimento, tendo acabado por se suicidar. Contudo, e porque gostava muito de crianças, deixou a indicação aos seus pais que, do dinheiro que tinha, destinassem 170 contos para criar uma creche no Pinheiro Grande. Como aqui não haviam muitas crianças, pensámos em criar uma Ludoteca na Chamusca. Fizemos a sua instalação no Bairro 1.º de Maio, num espaço emprestado pela Santa Casa da Misericórdia. Ali se fez um trabalho gigantesco, que pareceu sempre pouco visível, mas que ocupou crianças das quais os pais não podiam cuidar e tratar, por razões profissionais e económicas, e que ali eram recebidas. A Ludoteca foi um grande factor de integração social e de auxílio familiar e um meio de valorização daquele lugar.


O retrato pintado da Dr.ª Manuela Rodrigues


Mas para mim houve uma outra pessoa de importância fundamental nesse processo e no próprio Bairro 1.º de Maio, que foi o Paulo Mira. Através da criação da Associação dos Amigos da Ludoteca e da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro 1.º de Maio, e do seu envolvimento com a Ludoteca e com a própria Autarquia, este jovem dinâmico conseguiu a reconfiguração social do Bairro 1.º de Maio e fez com que os moradores e as pessoas de fora mudassem de opinião em relação ao Bairro e não o vissem com um lugar de conflito e desagradável para se viver.
O Paulo Mira era uma pessoa com uma dedicação, uma perspicácia e um empenhamento acima da média e que contribuiu de forma decisiva para que aquelas gentes do Bairro passassem a ser pessoas iguais às outras, menos desiguais.



Paulo Mira, o sorriso franco de um Homem que deixa muitas saudades. 

A Ludoteca sendo um projecto fisicamente pequeno, teve uma dimensão social muito importante, porque passou também a dar apoio às crianças quando estas não tinham aulas, ou ficavam à espera de transporte para irem para as suas casas em vários lugares do concelho e assim não ficavam na rua.
Foi um projecto muito positivo e de grande dimensão humana, e que ainda hoje continua a ter muita utilidade social.
Gostava ainda de referir que a Ludoteca da Chamusca, foi a primeira a nível do país a celebrar um protocolo com a Segurança Social.

E qual foi o aspecto negativo que mais o marcou na sua actividade enquanto autarca?

Foi quando decidi entregar-me à Polícia Judiciária e assumir toda a responsabilidade pela situação financeira que se vivia na Câmara. A tesouraria tinha rebentado, mas a autarquia precisava de respirar, avançar e sobreviver. Para isso era urgente encontrar verbas. Tive a ideia de negociar empréstimos com os bancos, dando como garantia os valores que iríamos receber por parte das empresas que iriam proceder ao pagamento da sua instalação na área do município. Fiz, portanto, empréstimos a descoberto contando com esse dinheiro e na óptica de que o resultado dessa operação traria um saldo positivo. Mas os pagamentos por parte das empresas não se deram no timing necessário e quando a situação se tornou insustentável e como eu era o principal responsável, fui-me apresentar à Judiciária para que se esclarecesse que não me estava a abotoar com esse dinheiro.
Entrei numa grande angústia, foi uma situação dramática para a minha família, mas o mais importante foi salvaguardar as pessoas que trabalhavam comigo e a situação económica da autarquia. Não tenho qualquer arrependimento relativamente à situação e saí dela sem qualquer culpa ou condenação, porque ficaram esclarecidos os procedimentos tidos e o processo acabou por ser arquivado. A situação apenas se deveu à minha intenção de fazer aquilo que pensei ser melhor para que o meu concelho continuasse a desenvolver-se e não estagnasse.

Quais foram as coisas que não conseguiu implantar no concelho da Chamusca e que gostaria que tivessem sido feitas?

Gostava que a Chamusca tivesse tido um maior desenvolvimento económico, com a implantação de empresas. Este facto também seria um contributo muito importante para a criação de postos de trabalho e para combater a desertificação do concelho. Mas, não servindo isso para me desculpabilizar, não nos podemos esquecer, neste ano em que se comemoram os 110 anos do arranque da construção da Ponte João Joaquim Isidro dos Reis, na Chamusca, que é ela que ainda assegura um grande fluxo de trânsito e de transportes de mercadorias, e que desde essa altura a criação de um novo traçado viário nunca passou do papel e de um projecto, o que deixou a Chamusca longe de um eixo rodoviário com mais mobilidade e melhores acessibilidades para as indústrias aqui se implantarem, escoarem os seus produtos e assim podermos ter mais desenvolvimento.



110 anos após o lançamento da primeira pedra para a sua construção, entre Santarém e Abrantes esta continua a ser a única Ponte que assegura a ligação entres as duas margens do rio Tejo e que torna possível o imprescindível transporte de mercadorias.  

Nunca pensou noutros voos a nível da política nacional?

Ainda cheguei a ser Presidente da Associação Distrital de Santarém da Associação de Municípios, porque confiavam na minha competência para representar as Autarquias do Distrito, mas ser deputado nunca me seduziu. Apesar disso, sem esta motivação da minha parte, mas por indicação e vontade partidária, ainda integrei uma lista para umas Eleições Legislativas. Felizmente que os resultados foram fracos e não me afastaram do meu meio e do meu objectivo primordial, o progresso do meu concelho. 

33 anos de vida autárquica é muito tempo. Foi ficando por não querer abdicar do seu estatuto pessoal?

Não, nada disso. Apesar de ter um vencimento acima da média, o que me manteve foi a vontade de avançar com novos projectos de desenvolvimento concelhio. De resto desconheço o que é isso de estatuto. Nunca tive peneiras.
Fui sempre um homem simples. Vesti sempre roupas comuns a muitas outras pessoas. Só comprei a minha casa em 1997 e recorrendo a um empréstimo bancário. Nunca vivi como um rico. Quando tinha que ir a reuniões importantes, como é evidente, vestia o fato e a gravata. Mas confesso que não me sentia bem com essa indumentária. Nunca gostei muito de coisas finas. Só como exemplo, uma vez fui convidado para ir a um restaurante que dizem ser chique, em Lisboa, que serve a comida dita gourmet. O empregado andou à minha volta a insistir que comesse a broa de uma determinada localidade do norte do país, que era algo de muito bom e de rara qualidade. Depois de tanta insistência tive que lhe responder que já comera pançadas de broa e que o fizera para toda a vida, porque em criança era o que mais comia. As pessoas quando nos vêem de fato e gravata e fazendo parte de uma comitiva de políticos, pensam que somos todos ricos e que nunca vivemos situações  de dificuldade económica.


Numa acção como Presidente da Câmara Municipal da Chamusca, conjuntamente com Presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários Chamusquenses, o saudoso Eurico Monteiro, descerrando o Monumento alusivo à inauguração da nova sede daquela Entidade.


Com uma das equipas do Executivo da Câmara. João José Matias Bento, José Melão e Francisco Matias. Acompanhados por outra Figura da política autárquica; Artur Jacinto. 

Posso presumir então que lhe foi fácil deixar o poder!?

Não tive qualquer constrangimento por deixar o meu cargo autárquico. Nunca estive agarrado ao poder, nem fiquei tantos anos à frente da Autarquia por uma questão de dinheiro. Só fui ficando enquanto achei que o projecto que tínhamos para o Concelho era bom, estava actual e podíamos avançar com ele. Quando senti que já não podia acrescentar mais nada, retirei-me.


Última fotografia tirada no interior dos Paços do Concelho enquanto Presidente da Câmara. Sob o retrato pintado de João Joaquim Isidro dos Reis do qual é um profundo admirador.

Actualmente como é que ocupa o seu dia a dia?

Agora dedico-me à minha família e também muito a esta casa onde vivi em criança e durante grande parte da minha juventude, e que tenho vindo a decorar com variadas peças sobre a sociedade, a cultura, a publicidade e a história. Neste espaço, a que chamo a “Mercearia da Quinta” em memória do meu bisavô, desenvolvo alguns eventos temáticos, para apresentar a grupos de visitantes que aqui se deslocam. É uma espécie de museu pessoal, mas também contém muitos elementos que ajudam a traçar o percurso do Concelho da Chamusca, de Portugal e do Mundo, na área religiosa, social e etnográfica.


O seu bisavô José Rodrigues de Moraes, cuja memória evoca, a sua bisavó e a sua avó.


Com a sua mulher Elisete, o seu pai e o seu filho Miguel.

Os seus filhos Pedro e Miguel, quando crianças, numa imagem que muito preserva.

Sendo um apaixonado pelo concelho, quais os aspectos que nele mais aprecia?

Desde logo aprecio as suas gentes, que são por vezes pessoas de trato difícil, mas que se lhes dermos a devida atenção e as tentarmos compreender vemos que são empreendedoras, dedicadas à sua Terra e capazes de estabelecer relacionamentos fortes a nível social.
Temos valores históricos, culturais e do património bastante vincados e sendo eu uma pessoa interessada sobremaneira por estas áreas, sinto orgulho por os possuirmos. E mesmo sendo por vezes coisas pequenas, como por exemplo as festas de Tamazim, de S. Marcos, no Arripiado e todas as outras, a verdade é que fazem parte da identidade desta Terra e deste Povo. Basta olharmos para a Feira do Chouto, que já se realiza desde 1755, para percebermos a importância destas organizações para o enquadramento social do concelho.
Na globalidade gosto de todos os lugares deste extenso concelho e sinto uma grande satisfação em aqui viver.

Que mensagem gostaria de deixar para os naturais do concelho da Chamusca e para todos os leitores desta entrevista?

Eu tive a felicidade de conhecer muito mais pessoas boas do que menos boas. Trabalhei com centenas de pessoas de todas as classes sociais e de diferentes formações ideológicas e na generalidade as recordações que guardo é de um enorme prazer em as ter conhecido.
Nós não devemos discriminar e subvalorizar os outros, apenas por não terem dinheiro ou um estatuto social.
Sou uma pessoa optimista, mas a verdade é que a vida não tem só coisas boas. Por isso cabe-nos a nós, efectivamente, ter a noção de que não há ninguém primordial e insubstituível e acima de todos os outros. Nesse sentido temos que ter respeito pelo ser humano e pela natureza.
            Devemos acreditar sempre que podemos fazer coisas positivas, mas sem espezinhar ninguém.